terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Summertime

(estive seriamente tentada a imitar um desses romances de quiosque e simular, aqui, um cena meia hard-core para vos explicar o meu fim de tarde mas, pensando bem, vai que as minhas crianças me lêem aqui? naaa... é melhor get straight to the point e deixar-me de merdas... ooops... de cacas, meus amores, de cacas...) Hoje senti uma brisa quente. Juro que sim. Quente mesmo. E estava no meio da rua e já era de noite. Não havia, portanto, qualquer hipótese de ser um ar condicionado a bafejar-me o trombil. Era mesmo uma brisa quente.

Ou isso ou estou (mesmo) com muitas saudades do Verão. Ena pá. Já só faltam seis meses.

sábado, 27 de dezembro de 2008

The Sun Always Shines On TV

Adoro estes dias em que todos os dias são plácidos domingos, como diria o meu grande Calvin. Poderiam ser lucianos pavarottis mas, apesar de paradinhos, não são bem dias mortos. Foram dias de excessos, de estúpidos e desnecessários excessos, demasias de comida, de sofá, de família, de televisão, de puzzles, de Trivial Persuit, de Pictionary, de King e de outras maravilhas do showbiz. A televisão, contudo, há-de sempre simbolizar o excesso por natureza. Qualquer canal nacional há-de sempre conter a exploração máxima da miserabilidade, da tortura, do teste máximo da resistência da pachorra do cidadão sentado na poltrona de pele da Divani&Divani (normalmente paga a prestações). Nenhum escapa a essa tentação infame de castigar o pobre criaturo que apenas queria digerir, languidamente, as rabanadas e os sonhos (dos fritos e dos outros) que lhe acossaram o estômago e a alma durante estes dias de (in)tolerância. Houve Natal dos Hospitais, sim. Desfile de pirosos e pirosas que já nem os velhinhos de cadeiras de rodas aguentam ver. Aguentei alguns minutos e, juro, não vi lá ninguém com ar de hospital. Teriam morrido com a notícia que teriam de ir assistir? Fica a pergunta. Houve Sequim d'ouro. Criancinhas exploradas pelos paizinhos frustrados que sonharam um dia pisar o Scala de Milão. Petizes vestidos de primeira comunhão com ar cândido, disfarçando os talibãs que lhes habitam o quotidiano. Houve Música no Coração. Pela quinquagésima vez, sim, que pode alguém ainda não ter visto. E lá estava a Julie a cantar que os hills are alive. Cansativa, a senhora. Não era. Mas, depois de cinquenta e oito vezes, torna-se. Houve Sozinho Em Casa (não sei se o I, o II, o III, o IV, o V ou o VI, que desliguei depois de ver que estava a dar o filme com o puto-que-até-tinha-bom-ar-mas-cuja-fama-e-o-dinheiro-a-mais-deram-cabo-dele). Pela octagésima vez. Sobre isto, há pouco mais a dizer. Apenas que o puto me enerva solenemente e que os ladrões deviam ser todos assim, jumentos credenciados. A televisão é uma janela para o mundo. Pena é que nestes dias a paisagem lá fora seja sempre a mesma. A ver se para o ano mudo de cenário e só vejo a Fox, o Travel e o AXN. Ao menos a programação é sempre coerente com o resto do ano.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Have Yourselves a Merry Little Christmas

O Natal é um tempo dado a muita hipocrisia. Quando era (mais) pequena achava que eram apenas os corações a amolecer com as festividades, os afectos empedernidos a derreter com o calor do nascimento do menino Deus. Mentira. As pessoas são naturalmente hipócritas. Desejam boas festas e saudinha (que é o que é preciso) e, se preciso for, mal as criaturas voltam costas é vê-las a comentar o corte da saia, o (mau) aspecto do cabelo e, evidentemente, o par de chifres que tem na testa e que só ele/ela é que não sabe. O Natal é muito dado a pôr a nu as fraquezas e as virtudes de cada um. Se é certo que o Pai Natal não traz prendinhas aos meninos que se portam mal, também é certo que quem foi uma viborazinha durante o ano todo, continuará a sê-lo, alegremente, durante a quadra natalícia. Se, ao contrário, tivermos sido boas pessoas, cheias de valores e de corações a transbordar de bem, isso espelhar-se-à durante estas festas. Por isso, e em vésperas do nascimento do Menino mais famoso do mundo, quero desejar, a algumas das pessoas que me lêem aqui, um Natal cheio de Paz, cheio de afecto, cheio de olhos em quem está á nossa beira e que, às vezes, tanto nos passa ao lado. Haverá outro núcleo de pessoas a quem desejo que se portem melhor para o ano. Que não roubem os amigos. Que se comportem com mais respeito pelos outros (sobretudo quando os outros as acolheram tão bem). Que tenham mais dignidade enquanto seres humanos. Que vivam mais para o Ser e um bocadinho menos para o Ter. Que sejam menos egoístas e menos imaturos. Que cresçam um bocadinho mais. Para um terceiro núcleo de pessoas apenas desejo que recriem a capacidade de abrir sorrisos nos outros. Assim, daqueles escancarados porque, afinal, isso fará com que (se calhar) seja Natal todos os dias. E, para todos em geral, Boas Festas. Mas, sobretudo, Festas Boas, espalhadas, de preferência, pelo corpo todo porque, como diria o Paul, All We Need Is Love...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Fases de um susto (concreto)

Fase 1 A princípio é simples, como diria o Sérgio. Lamentamos as coisas e as situações, indignamo-nos com as tragédias dos outros, distantes, lá longe, abanamos a cabeça, revoltamo-nos e, em situações mais gritantes, vertemos uma lágrima. Comentamos no café com os amigos, com a senhora dos jornais, com a pessoa da frente na fila dos correios. "é uma vergonha porem assim bombas nos países, matarem assim gente tão inocente, em nome sabe-se lá de quê e o que faz falta aqui é um Adolfo que os exterminasse a todos e, se fosse em Portugal, era mesmo à Otelo e era pô-los a todos contra uma parede branca no Campo Pequeno e metralhá-los sem dó nem piedade, esses grandas filhas-da-puta" Fase 2 Depois vem o concreto, vem a notícia colocada à nossa dimensão, à porta da nossa casa. Sentimos o medo mais perto, sentimos-lhe o hálito, a respiração dele bafeja-nos o pescoço. Por segundos congelamos. Ocorrem-nos trinta milhões de coisas diferentes. Os filhos, os pais, os amantes, os amigos, os chefes, tudo e nada por esta ordem. "Foda-se para isto, pá. Houve uma ameaça bombista num centro comercial lá pra cima. Ai Jesus que tragédia quem é que nos quereria fazer mal? Hão-de ser esses putos estúpidos que acabam as aulas e não têm nada pra fazer e divertem-se a aterrorizar os outros. Ai meu Deus, e eu que ainda ontem lá fui comprar uma camisolita à minha mai' nova e pensar que... não, não, é mau demais... ó meu deus para que estaria eu guardada? já nem passava o Natal com os meus, ai, valha-me a minha rainha santa, padroeira das minhas aflições. Uma bomba em Coimbra, vejam lá!! Os bombeiros tiveram que inundar os pisos para travar os explosivos que foram encontrados por um garoto dentro de uma mochila ou qualquer coisa que também não me souberam explicar muito bem. Este mundo está podre, vergonhoso, o clima de terror sente-se em todo o lado." Fase 3 A comunicação social escreve sobre os factos. A motivação e a conversem amainam. "inundação? Das normais? Então afinal não era bomba nenhuma?! Caramba, nunca acontece nada em Coimbra!!! Que tristeza!!! Ao menos nos países normais ele é bombas, ele é acidentes, ele é sismos... Aqui é uma miséria, nem nada, nem nadinha... E um gajo já aqui preocupado e com tanto trabalho para fazer... agora já nem me consigo concentrar, claro, dizem isto assim às pessoas e pensa-se logo no pior. e depois querem que o País ande prá frente!! Como, não me explicam??? Estou aqui numa pilha, credo!! Vou mas é sair mais cedo a ver se desopilo um bocadinho que até estou agoniada..." Conclusão do estudo: Eu adoro Portugal... : )

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Saudinha é o que é preciso!!

Costuma dizer-se que os homens são uns piegas insuportáveis quando estão doentes. Que de uma constipação fazem uma pneumonia. Que de um desarranjo de tripa fazem uma gastroentrite. Que de uma contrariedade na vida desatam a votar Bloco de Esquerda.

No entanto há mulheres, moças afoitas que não dizem que não às contrariedades da vida que, quando ficam doentes, abate-se sobre elas tal mafarrico, que ficam prostradas, lamechas, desgraçadas. Uma (simples) constipação arruma-as para o canto da desgraça, acorrenta-as a um mar de ranho e de dor de cabeça e de nariz entupido e de coisas ainda mais extraordinárias que, só por pudor, não descrevo aqui.

Estado gripal é sinónimo de muitas dores, muita sensibilidade, muito miminho, muita pieguice. E nessas coisas não são nada fáceis. Fazendo jus à (má, péssima) fama dos homens, também elas juram estar à morte, veêm luzes brancas a chamar por elas, têm epifanias durante os velados sonos, alvitram sobre macaenses espancadas e descritas em 2007, enfim, há todo um rol de sintomas que definem, por si só, uma mulher-que-parece-um-homem-quando-está-doente.

Abençoados aqueles que as aturam pois deles será, certamente, o reino dos Céus. (dim, dim, dou com uba gribe gue guase dão b'aguendo em bé. O que be vale são os bibinhos e os chazinhos com bel e os gombrimidinhos bara as dores. Bas já dou a ficar fartinha...)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Quem, eu??

Sabemos que batemos no fundo quando, à espera do "plim" do micro-ondas, e com um frio de fazer neve, damos por nós a ligar um dos bicos do fogão para aquecer as mãos.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Elegance

Houve por aí umas certas e determinadas pessoas que decidiram eleger os moços com melhor aspecto que habitam aqui esta bolinha azul, vulgo, Planeta. Acho maravilhoso que nuestros hermanos se tenham dado ao trabalho de estar dias, semanas, meses a fio a olhar, micar, medir e apreciar tanto homem que anda por aí, a fim de poderem ser eleitos os dez-mais dos dez-milhões-ou-mais. Eu duvido sempre dos critérios estéticos aplicados pelos espanhois. Além de uma auto-estima sobrevalorizadíssima e de uma arrogância sem precedentes, como é que se pode confiar num povo que tem, na sua Língua, a palavra "melocoton"?? Não pode, pois claro que não. E, se dúvidas houvesse, há este artigo (é o mesmo lá de cima, escusam de ir ver outra vez) que elege como o mais elegante dos moços... o Karl Lagerfeld. Meus amigos, isto é uma piada parva e vocês são um jornal respeitado. Esse senhor, desde que passou de baleia fashion a sereia ridícula perdeu todo o cariz. Elegante?! Com aquelas golas de papo e aqueles cabelos (tratadinhos com Channel, é certo) à arrumador de carro? Por favor... E desde quando é que o Obama é menos estiloso que o Federer?? Roger, não leves a mal. Jogas que até aleija, é certo, tens alguma pinta, sim senhor, mas o Barack é o Barack. Yes he can, mon chér!! E o Príncipe Carlos em oitavo lugar?? À frente do Sarkozy?? Mas vocês injectam-se com a seringa dos biscoitos?? Açucar a mais?? Diabetes aos saltos?! Onde - seres!!! - onde é que o Charles é elegante?? Nas orelhas? No desengonçanço a andar (olha!! inventei uma palavra...)?? No extraordinário amor que nutre pela sua mãezinha? Pelas almas, meus senhores!! Termino aqui sublinhando que não se pode mesmo confiar nos espanhóis. Um povo (ou parte de um povo), (ou meia dúzia de ceguetas mais interesseiros que interessados), que elege o porreiro do Zé como o sexto mais elegante do mundo... eh pá... pronto... há pouco mais a dizer. Não me leves a mal, Zé, não é que não ache que tenhas pinta e bom aspecto e tal... Mas ficares à frente do Jude Law parece-me demasiado excessivo, até para alguém com o ego de um tamanho exacerbado como o teu. Cá entre nós, que lhes fizeste, hun? Ameaçaste exportar a Maria de Lurdes? Prometeste um Mário Lino para o Natal? Pagaste em pesetas para lhes afagar o nacionalismo? Cá para mim eles estavam só na reinação. Palhaçada, percebes? Quando deres por ela, estão a impingir-te outro problema qualquer. Um banco falido, uns caramelos estragados ou outra coisa qualquer. Faz cuidado, Zequita. Põe-te à coca! Mas não a cheires. Para desgraça já basta o que basta.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Adeste Fidelis!

Todos os anos a cena repete-se. No final de cada Natal prometemos a nós mesmo que para o ano não vai ser nada assim. Que vamos fazer as compras todas nos saldos de Agosto (Setembro, vá!). Que não vamos (nunca mais!!) deixar tudo para as vésperas. Que não vamos dar presentes a quem realmente não sentimos vontade de dar. Que não voltamos a oferecer inutilidades, tipo panos de cozinha ou cuecas fio dental que nunca se chegam, efectivamente, a usar. Que no Natal não se dão presentes, dão-se miminhos (e festinhas e beijinhos e coiso). Que o Natal é só para as crianças.
Mas, a verdade é que, quando chega o final de Novembro, começamos a entrar em stress. Toda a gente à nossa volta já fez algumas compras e nós ouvimos o tic-tac irritante do relógio da consciência a gritar-nos e a insultar-nos (apenas) porque ainda não comprámos nem uma caixinha de Ferrero Rocher.
E é ver o povo, em delírio, a invadir os centros comerciais ao fim-de-semana, a comprar, desenfreadamente, com dinheiro que não tem, só porque o ano passado a sogra da minha prima me ofereceu um naperonzinho bordado (maluca!!) e agora até parece mal não lhe dar uma caixinha-de-mon-chéri-a-ver-se-a-velha-morre-de-vez.
Até começamos bem. Fazemos uma lista das pessoas importantes. À frente escrevemos o presente que estamos a pensar oferecer. Juramos que não vamos sair daquele plano nem daquele orçamento. Mas depois o consumismo mói-nos. Ataca-nos à má fila, como um cão danado, pisca-nos o olho, insinuante e venenoso, e faz-nos cair em tentação. Pega lá mais um par de meias para a porteira. E uma caixinha para a auxiliar do Colégio. E uma garrafa de Bailey's do Lidl para aquele senhor-dótor tão simpático que nos passou à frente daquela vez, no centro de saúde. E um queijo da Serra (ou um Gresso) para aquele professor que deu positiva ao miúdo apesar de ele não saber ler nem escrever.
O Natal serve para pagar favores. Tirando a família (latus sensus), o Natal tem essa imensa generosidade de nos lembrarmos de gente para quem, em todos os outros dias do ano, nos estamos positivamente nas tintas. E é ver os peditórios (pedinchices?) para tudo e mais um par de botas, desde as crianças abandonadas, aos cães sem tecto, aos canários sem voz. Tudo serve de pretexto para pedir.
De certa forma acredito que haja alguma magia nisto. Mais vale ser, de facto, apenas uma vez no ano, que não ser, de todo.
Mas porque raio não sabemos (conseguimos?) estender esta magia aos outros dias todos? Se o Natal é sempre que um Homem quiser, eu cá não quero que seja preciso ser Natal para ser melhor.
Este ano declarei guerra aos presentes "tem que ser".
Nem mais uma caixinha de sortidos da Triunfo!! Nem mais um cachecol de padrão contrafeito da Burberry's!! Nem mais umas meias com o Mickey ou com preservativos!!
(este ano vou abdicar de um dos meus bens mais precioso - a disponibilidade - e estar, com qualidade, com quem efectivamente me merece...)
Venite adoremus, Dominum!!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Change the way you look at the world

Ontem revi, pela enésima vez, este magnífico filme, esta interpretação sublime, esta história mágica, que há-de sempre fazer-me questionar o mundo pequenino, tal como o conheço.
Numa época de Advento, em que (supostamente) nos preparamos para a magia do que está para chegar (e, às vezes, um ano novo pode mudar toda a nossa fé...) gosto de saber que ainda há histórias assim, que nos deixam a pensar, que nos fazem questionar, que nos sabem a Natal ainda que nada tenham de vermelho ou dourado.
Viajar em raios de luz. Criarmos um sítio longínquo onde não haja lugar ao sofrimento de qualquer espécie. Curar (apenas) pela magia do estar. Despertar consciências. Mudar o pequenino mundo de quem temos à volta.
Se isto não é (ser) Natal, tenho que repensar os meus conceitos todos.
A ver e a rever vezes sem fim.
Um filme a guardar, na estante e no coração.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

4 de Dezembro de 1980

Faz hoje vinte e oito anos que morreu Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro.
Morreu muito mais que um político, muito mais que um homem. Morreu uma esperança, um pedacinho de liberdade, um bocadinho de democracia, um pouquinho de fé.
Durante a minha adolescência tive fotografias dele na parede do meu quarto tentando, assim, mantê-lo vivo no meu coração como um exemplo de vida, daquela vida que se quer vivida com honra, com ideais, com certezas num mundo melhor.
Tenho-o guardado nas veias como um exemplo, como um símbolo do que (ainda) quero ser quando for grande.
Como um herói.
O mundo ficou muito mais pobre.
Muito, muito mais.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Era o vinho, meu Deus, era o vinho...

Se, há (poucos) anos atrás, alguém me dissesse que um dos meus sonhos de vida era ser enóloga, distinguir os aromas e os sabores de um bom vinho (tinto), apreciar das cores e das texturas, saber que há vinhos que se mordem e que se deixam comer, teria colocado, imediatamente, um termómetro na orelha desse injuriador para lhe medir a, certamente, elevada temperatura corporal. Eu, que me orgulhava de não beber alcool há mais de trinta anos, vi-me rendida em Junho de 2007, aos maravilhosos prazeres desse divino néctar. Corria um Verão quente e eu aventurei-me na Herdade do Tio Roque(n)tte (era p'ra rimar...) a fim de degustar um pouquinho de cultura vinícola que tanto me passava ao lado. Comecei com uma prova de vinhos. Note o leitor que eram dez e meia da madrugada e esta que vos escreve não bebia alcool desde a nascença, mais coisa menos coisa. O enólogo da Herdade foi servindo diversos vinhos, "este e mais aquele e agora tem que provar este, e este é uma reserva excepcional, e este é escolha de sócios, e este e ainda este" com uns salgadinhos minúsculos e miseráveis para lavar a boca de eventuais vestígios de taninos que lá tivessem ficado. Eu, uma inculta em questões de quão-alcoolizados-podemos-ficar-quando-nos-armamos-em-apreciadores-experientes, provei de tudo. Até branco que, manifestamente, odeio. Bruta! O resultado, ainda assim, não foi o que esperava. Dormi recostadinha nos sofás do Tio Zé que foi uma beleza, até a fome ter apertado e ter descido para almoçar. A fazer companhia a um bacalhau miserável serviram mais vinho. Na altura elegeu-se um aragonês da Herdade, do ano de 2004, ano de muitos sofrimentos pessoais, mas que, ainda assim, produziu um dos melhores vinhos que já bebi. Lembro-me da sensação de leveza debaixo dos pés, de núvens a provocar as minhas pernas e de muita luxúria que, em mim, o vinho tem um efeito malévolo e nefasto. Desde então a minha vida mudou. O vinho tinto passou a ser um incomensurável deleite, um prazer magnífico, uma perdição. A luxúria, essa, não precisa de tinto para me atormentar mas, quando devidamente regada, nem vos digo nem vos conto (eheheh) Nestes dias frios, em que (só) apetece uma lareira acesa, um tinto à temperatura ideal e uns queijinhos da Serra (ou um patinha negra que eu não sou fundamentalista), tenho reflectido muito em qual será, de facto, o vinho dos vinhos. Aquele vinho que nos borda a memória dos aromas e dos sabores e dos afectos. Aquele realmente especial que nos faz brilhar os olhos quando o recomendamos. Aquele que oferecemos (apenas) a alguém que precisa da alma iluminada, dos braços aquecidos por muito mais que um abraço, da boca rasgada por muito mais que um sorriso. Não me restam dúvidas: o melhor vinho tinto é aquele que ainda não provei. * este texto é dedicado a duas pessoas muito especiais para mim. Uma, apreciadora extraordinária e amiga do coração, outra, gaga pelos efeitos de um desmedido Quinta de Santar ao almoço. : )

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

VIH

Porque aqui, a brincar, às vezes, também se fala a sério.