
Se, há (poucos) anos atrás, alguém me dissesse que um dos meus sonhos de vida era ser enóloga, distinguir os aromas e os sabores de um bom vinho (tinto), apreciar das cores e das texturas, saber que há vinhos que se mordem e que se deixam comer, teria colocado, imediatamente, um termómetro na orelha desse injuriador para lhe medir a, certamente, elevada temperatura corporal.
Eu, que me orgulhava de não beber alcool há mais de trinta anos, vi-me rendida em Junho de 2007, aos maravilhosos prazeres desse divino néctar.
Corria um Verão quente e eu aventurei-me na Herdade do Tio Roque(n)tte (era p'ra rimar...) a fim de degustar um pouquinho de cultura vinícola que tanto me passava ao lado.
Comecei com uma prova de vinhos. Note o leitor que eram dez e meia da madrugada e esta que vos escreve não bebia alcool desde a nascença, mais coisa menos coisa. O enólogo da Herdade foi servindo diversos vinhos, "
este e mais aquele e agora tem que provar este, e este é uma reserva excepcional, e este é escolha de sócios, e este e ainda este" com uns salgadinhos minúsculos e miseráveis para lavar a boca de eventuais vestígios de taninos que lá tivessem ficado.
Eu, uma inculta em questões de quão-alcoolizados-podemos-ficar-quando-nos-armamos-em-apreciadores-experientes, provei de tudo. Até branco que, manifestamente, odeio. Bruta!
O resultado, ainda assim, não foi o que esperava. Dormi recostadinha nos sofás do Tio Zé que foi uma beleza, até a fome ter apertado e ter descido para almoçar. A fazer companhia a um bacalhau miserável serviram mais vinho. Na altura elegeu-se um aragonês da Herdade, do ano de 2004, ano de muitos sofrimentos pessoais, mas que, ainda assim, produziu um dos melhores vinhos que já bebi. Lembro-me da sensação de leveza debaixo dos pés, de núvens a provocar as minhas pernas e de muita luxúria que, em mim, o vinho tem um efeito malévolo e nefasto.
Desde então a minha vida mudou. O vinho tinto passou a ser um incomensurável deleite, um prazer magnífico, uma perdição. A luxúria, essa, não precisa de tinto para me atormentar mas, quando devidamente regada, nem vos digo nem vos conto (eheheh)
Nestes dias frios, em que (só) apetece uma lareira acesa, um tinto à temperatura ideal e uns queijinhos da Serra (ou um patinha negra que eu não sou fundamentalista), tenho reflectido muito em qual será, de facto, o vinho dos vinhos. Aquele vinho que nos borda a memória dos aromas e dos sabores e dos afectos. Aquele realmente especial que nos faz brilhar os olhos quando o recomendamos. Aquele que oferecemos (apenas) a alguém que precisa da alma iluminada, dos braços aquecidos por muito mais que um abraço, da boca rasgada por muito mais que um sorriso.
Não me restam dúvidas: o melhor vinho tinto é aquele que ainda não provei.
* este texto é dedicado a duas pessoas muito especiais para mim. Uma, apreciadora extraordinária e amiga do coração, outra, gaga pelos efeitos de um desmedido Quinta de Santar ao almoço.
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