Hoje de manhã ia tropeçando numa pessoinha. E digo isto assim, sem qualquer pudor, porque realmente era uma pessoa muito pequenina e, de tão pequenina, eu ia mesmo tropeçando nela.
Hoje vi, seguramente o anão mais pequenino que alguma vez vi na vida.
Era um senhor que, pelos traços do rosto, deveria ter perto de sessenta anos. E era mesmo (mesmo!!) pequenino. Pequenino assim a chegar-me pouco acima dos joelhos. Se tiverem em consideração que aqui a rapariga tem 1.72m de rapariga, poderão perceber o meu espanto.
Estava eu a sair do tribunal, à procura do motorista, presa nos meus pensamentos relativos ao julgamento que tinha acabado de acabar e, eis senão quando, vou contra ele.
Nos primeiros três nano-segundos, pensei que era uma criança, pese embora estivesse vestido de crescido. Ponderei (ainda nos mesmos três nano-segundos que dão para pensar muitas coisas) que o Carnaval pudesse ter chegado mais cedo e o petiz estivesse mascarado de Senhor Adulto. Mas, depois, olhando com mais atenção para o rosto enrugado do senhor, dei-me conta que era mesmo, só, uma pessoinha pequena.
O meu imediato pensamento foi "oh, pá, tão fofinho!!" seguido de um "com uma argolinha na cabeça era um perfeito porta-chaves!" mas, depressa me dei conta, da palermice que tinha acabado de pensar. Que não deve ser nada fácil ter uma idade respeitável e, ainda assim, ser tomado por uma criança.
Lembrei-me logo das inúmeras maldades de que poderia ser vítima. De como a mulher podia sentá-lo à mesa, ou no sofá, ou até noutros sítios, mesmo que ele não quisesse ("vamos conversar agora, senão não te tiro de cima da estante!!!"). De como haverá de ser complicado deslocar-se, quer em veículo próprio, quer em transportes públicos ("oh raios, ficou-me alguma coisa presa na porta e agora o autocarro não arranca com a porta aberta!!"). De como será difícil ter um cargo de alguma notoriedade (pública ou privada) pela dificuldade em impôr respeito a que a sua altura o acomete ("condenado, eu??? Ponha-se em cima de uma mesa, olhe-me nos olhos, e repita lá isso outra vez!!"). De como será incrível dar uns tabefes aos seus filhos quando eles poderão ter o triplo da sua altura ("João André, tu baixa-te, para levares umas galhetas que eu já tas ando a prometer!!!") e toda uma infinita palete de situações angustiantes que uma pessoa pequenina pode sofrer.
E eu, que pensei nestas coisas todas (e noutras mais ordinarecas, confesso, mas cujo pudor me impede de revelar aqui), mesmo assim não pude deixar, no fim de tanto pensamento, de exclamar de mim para mim:
- Oh, pá, tão fofinho!!
Sim, eu sei. Sou incorrigível.